Fui ao 47 fazer algumas entrevistas e conversar com algumas pessoas sobre a realidade, os desafios e conquistas da cidade. Tinha a intenção de trazer boas notícias, de fazer algumas fotos e postar muitas novidades. Gostaria de ter feito mais, porém a fatalidade que assolou o peito de cada um de nós que esteve lá no carnaval me fez calar durante o final da semana inteiro. Engasguei diante de tantos fatos concluídos, emudeci perante tanta coisa que vi e senti ali, na cidade da minha infância. Violência. Tragédias. Falta de água. Política. Muita coisa está errada. Tenho vontade de gritar, pedir socorro, implorar ajuda, mas parece que tudo é em vão. A cidade cresceu e junto dela uma onda de péssimas imagens destroem a paz e a alegria nas ruas e avenidas do 47. Dei uma volta no Sítio do Padre pra fazer umas fotos e matar a saudade e fotografei o que a muito tempo parecia um pesadelo, um sonho de muito mau gosto é hoje, real: um invasão. Ali, aos arredores do bairro do 46, as casas surgem desorganizadas em ruas rasgadas de forma irregular sem qualquer tratamento de esgoto ou infra estrutura – as pessoas não têm saneamento básico naquele recém chegado bairro. Poços cavados no meio dos caminhos que dão aos barracos, luz elétrica irregular, crianças misturadas a porcos nas poças de lama. Famílias que se alojam sem descontrole por detrás do cemitério embaixo de casas de barro e cobertas com lona. Terrenos cercados com arame farpado. Casas em alvenaria e barrancos: uma favela. Fruto do crescimento, afirmam alguns. Crescer sem desenvolver, sem preparar é perigoso. Demais. A prefeitura tem que ter ordem e deve agir com seriedade. Favela, gera miséria e pobreza causa a violência gritante, nas grandes e pequenas cidades. Há que se ter um controle. Cidades que crescem de forma horizontal num processo de favelização geralmente têm seu contingente populacional na mesma proporção. Estamos crescendo em tamanho, em população, em número de habitantes e, consequentemente, em problemas também. Por isso essa violência instalada. Por isso problemas como assaltos, sequestros, assassinatos, arrombamento e roubos por toda a parte. A cidade “cresceu” e ficou a mercê da sorte e por conta da renda única do comércio e da prefeitura. Não se tem outra opção em Santa Luzia. Ou se é funcionário público ou se é comerciante. E isso é um absurdo. E essa leva de gente que chega por lá, como é que fica? E esse bando de forasteiro que chega e finca o pé numa invasão qualquer, vai viver de quê? Do vandalismo, é claro! Será que é difícil de se chegar a uma conclusão tão óbvia? A tendência é piorar. Ou se tomam decisões urgentíssimas ou a população de origem, que já estava, inclusive, acostumada com a paz no lugar, vai pagar o pato. Antes, até podíamos falar em outras opções como por exemplo a necessidade de mão de obra exigida pelas serrarias, mas com a crise no setor gerada pela maior fiscalização e a crescente agressão ao meio ambiente, esse ramo de trabalho na cidade já encontra resistência e declínio. A prefeitura sozinha não vai suportar e o comércio, tradicionalmente familiar, só emprega os seus. A tendência, portanto, é o caos social. Ou providências são tomadas ou no futuro, vamos ter que nos acostumar com a cerca elétrica, o alarme e os guardas noturnos. Sem contar que nossos filhos terão que se acostumar de vez aos vícios da modernidade, computadores, jogos e afins, pois daqui há algum tempo, ficar no terreiro ou em frente de casa, será muito perigoso, mas muito perigoso mesmo!
18 de fevereiro de 2010
"CRESCIMENTO"?
Fui ao 47 fazer algumas entrevistas e conversar com algumas pessoas sobre a realidade, os desafios e conquistas da cidade. Tinha a intenção de trazer boas notícias, de fazer algumas fotos e postar muitas novidades. Gostaria de ter feito mais, porém a fatalidade que assolou o peito de cada um de nós que esteve lá no carnaval me fez calar durante o final da semana inteiro. Engasguei diante de tantos fatos concluídos, emudeci perante tanta coisa que vi e senti ali, na cidade da minha infância. Violência. Tragédias. Falta de água. Política. Muita coisa está errada. Tenho vontade de gritar, pedir socorro, implorar ajuda, mas parece que tudo é em vão. A cidade cresceu e junto dela uma onda de péssimas imagens destroem a paz e a alegria nas ruas e avenidas do 47. Dei uma volta no Sítio do Padre pra fazer umas fotos e matar a saudade e fotografei o que a muito tempo parecia um pesadelo, um sonho de muito mau gosto é hoje, real: um invasão. Ali, aos arredores do bairro do 46, as casas surgem desorganizadas em ruas rasgadas de forma irregular sem qualquer tratamento de esgoto ou infra estrutura – as pessoas não têm saneamento básico naquele recém chegado bairro. Poços cavados no meio dos caminhos que dão aos barracos, luz elétrica irregular, crianças misturadas a porcos nas poças de lama. Famílias que se alojam sem descontrole por detrás do cemitério embaixo de casas de barro e cobertas com lona. Terrenos cercados com arame farpado. Casas em alvenaria e barrancos: uma favela. Fruto do crescimento, afirmam alguns. Crescer sem desenvolver, sem preparar é perigoso. Demais. A prefeitura tem que ter ordem e deve agir com seriedade. Favela, gera miséria e pobreza causa a violência gritante, nas grandes e pequenas cidades. Há que se ter um controle. Cidades que crescem de forma horizontal num processo de favelização geralmente têm seu contingente populacional na mesma proporção. Estamos crescendo em tamanho, em população, em número de habitantes e, consequentemente, em problemas também. Por isso essa violência instalada. Por isso problemas como assaltos, sequestros, assassinatos, arrombamento e roubos por toda a parte. A cidade “cresceu” e ficou a mercê da sorte e por conta da renda única do comércio e da prefeitura. Não se tem outra opção em Santa Luzia. Ou se é funcionário público ou se é comerciante. E isso é um absurdo. E essa leva de gente que chega por lá, como é que fica? E esse bando de forasteiro que chega e finca o pé numa invasão qualquer, vai viver de quê? Do vandalismo, é claro! Será que é difícil de se chegar a uma conclusão tão óbvia? A tendência é piorar. Ou se tomam decisões urgentíssimas ou a população de origem, que já estava, inclusive, acostumada com a paz no lugar, vai pagar o pato. Antes, até podíamos falar em outras opções como por exemplo a necessidade de mão de obra exigida pelas serrarias, mas com a crise no setor gerada pela maior fiscalização e a crescente agressão ao meio ambiente, esse ramo de trabalho na cidade já encontra resistência e declínio. A prefeitura sozinha não vai suportar e o comércio, tradicionalmente familiar, só emprega os seus. A tendência, portanto, é o caos social. Ou providências são tomadas ou no futuro, vamos ter que nos acostumar com a cerca elétrica, o alarme e os guardas noturnos. Sem contar que nossos filhos terão que se acostumar de vez aos vícios da modernidade, computadores, jogos e afins, pois daqui há algum tempo, ficar no terreiro ou em frente de casa, será muito perigoso, mas muito perigoso mesmo!
IMPRUDÊNCIA + CONIVÊNCIA = TRAGÉDIA
São chegados a mim e-mail’s e mensagens que pedem um postagem sobre os problemas enfrentados em Santa Luzia e que há anos são discutidos e há muito deveriam ter sido solucionados. Agora, com a morte chocante do menino Kayo, todos querem, de uma forma ou de outra, achar uma resposta pra mais essa fatalidade. Ataques ao poder público pela negligência e a falta de fiscalização nas normas e regras que conduzem o nosso direito de ir e vir - sejamos nós pedestres ou condutores, motociclistas, ciclistas ou motoristas particulares. Críticas aos irresponsáveis que, sem qualquer autorização, fincaram, no meio da movimentada rua, uma lombada irregular e mal elaborada do ponto de vista da sua engenharia. Pesares ao pequeno rapaz que dirigia irregularmente sem capacete ou mesmo habilitação mesmo porque, até pela idade, o direito não lhe foi dado. As pessoas querem um culpado: justiça! Quando o assunto envolve morte, e sobretudo uma morte precoce, como a desse menino, todos querem uma resposta. Quem será o réu? O pai que não barrou os mimos do filho? O prefeito pela péssima fiscalização? O garoto pela irresponsabilidade e empolgação? Os arquitetos que construíram e desenharam a lombada assassina? O dono da moto que cedeu ao amigo a chave do veículo sem se precaver se ele, o condutor, estava dentro dos parâmetros legais? A polícia que não fiscaliza os ilegais que fazem e acontecem nas ruas da cidade?Acho que nesse momento, de nada adiante especulações. Julgar e condenar qualquer pessoa que seja não vai trazer o menino de volta. Certo que todos nós ficamos estarrecidos e que muita, mas muita coisa, está errada na nossa cidade e que é preciso mobilização para um a mudança urgente. Mas desde muito cedo que o 47 deixa livre o trânsito para os menores infratores. Filhos de pais ricos que já aos 15 anos ganham uma moto ou um carro e o erguem como verdadeiros troféus aos amigos, igualmente empolgados. Pais que autorizam os filhos, ainda na adolescência, a saírem por aí motorizados exibindo o carrão do ano.Filhinhos de papai que só agora perceberam que todo carro ou moto é uma arma, uma arma que não aceita desaforo. A educação vem da família, a conversa e a conscientização devem sair primeiro do conselho dos pais. “Não faça isso, meu filho”, “Você é muito jovem ainda”, “Espera a maior idade, menino”. Papo furado de pais da antiga e que fazia toda a diferença quando respeitado. Garantir segurança aos filhos é um direito de pai que ama, que cuida e que sonho em ver o filho crescer. Educar para a vida é também educar para o trânsito, para o vício das drogas, o alcoolismo, o sexo precoce. Não estou querendo jogar a culpa pra cima do pai do garoto, o Edno, porque sei que ele, de fato, não se atentou ao fato, não por ser um pai displicente ou coisa parecida, mas porque na cidade já é tão comum a ilegalidade que a gente nem percebe mais o erro. É tanto jovem no volante de veículos que chega até ser piada querer que o filho espere a idade para a retirada da certeira de motorista. É tanta gente ilegal nas vias públicas do interior que chegar a fazer rir o pai querer exigir do filho o uso dos quites de segurança. Você que lê este texto agora, já imaginou passar pela avenida Castelo Branco em Santa Luzia e ver um desses meninos de capacete e joelheiras? Não, né? Pois é seria o maior vexame. O menino teria trauma, surtos psicológicos. Ora se nem mototaxista no 47 usa capacete. Taxista não usa cinto. As ruas não têm mãos duplas nem preferencial. A avenida Castelo Branco, por exemplo, legalmente até onde eu entendo de trânsito e tráfego deveria ter uma mão pra ir outra para voltar, mas...sem comentários! A coisa é tão caótica que quando eu chego à cidade, não uso cinto. Aqui em Belém é entrar no carro e, antes mesmo de ligar o motor, cinto de segurança pra não levar multa. Lá, esqueço a lei...ou melhor lembro da lei do vale tudo! Ali, vale o carro maior e como o meu é uma Eco Sport, o resto que se dane. É assim que fomos acostumados a pensar. “Estamos no 47, cinto pra quê?”. Irregularidade. Irresponsabilidade. Velocidade. Bebida. Direção. Mistura que, segundo a propaganda causa morte, acidente, imprudência e muito, muito risco a segurança de todos, mas nós, os luzienses parece, estamos nem aí para os índices e números da violência no trânsito. Li no jornal que neste feriado de carnaval tivemos 38 mortes, entre acidentes, latrocínios e genocídios...39, eu pensei, lembrando do menino Kayo. Em Santa Luzia, a cidade parou em luto pela morte do garoto, no resto do estado a folia continuou como se nada tivesse acontecido. Talvez o problema esteja ai, nesse único minuto de silêncio que fazemos no abaixar de um caixão para a cova. Depois do enterro, a vida continua, como se nada tivesse acontecido. Ainda hoje, se eu voltar ao 47 vou ver muitos meninos e meninas na garupa ou no volante de uma moto. Penso que a única mudança mesmo será a retirada da lombada. E, ainda que a prefeitura exija o capacete, esses mesmos meninos continuarão andando por lá com um pneu só fazendo malabarismos em cima de um motor, sem habilitação e em alta velocidade. Enquanto isso não mudar, nem o DETRAN indo em fiscalização vai impedir tragédias como estas. Porque os agentes raspam e punem por um dia, no outro, tudo volta ao normal somado a conivência dos pais. INFELIZMENTE!
17 de fevereiro de 2010
Os céus agradecem!!!!

Estive pensando que, enquanto aqui na terra a tristeza invade o coração dos amigos e familiares que recentemente perderam um dos seus mais queridos integrantes da folia e da alegria,no céu as coisas andam muito bem obrigado. Temos gente nova por lá e que vai fazer uma diferença e tanto. Acabou de chegar aos olhos de Deus o menino Kayo, mais novo folião do Bloco do Céu, que já conta com a participação mais que ilustre dos amigos Jamilson e Kley. Nossa, mãe, esse carnaval será mesmo um dos melhores por lá!
Aos que agora convivem com os sorrisos e brincadeiras dos três jovens divertidíssimos que perdemos aqui, resta a nós aquela inveja tremenda. Depois de tudo o que eles aprontaram em Santa Luzia e da enorme tristeza que invade o nosso coração, tenho certeza que o céu está muito, mas MUITO MAIS FELIZ!
Adeus Kayo. Vai em paz, amigo!
Cheguei de Santa Luzia ainda a pouco com o coração em luto. O peito carregado de angústia e uma sensação horrível de desconsolo. Estive no 1º CarnaNega, na casa da minha amiga Neguinha da Gorety. Cheguei ao 47 com aquela alegria de que o carnaluziense seria um dos melhores. O salão da casa dela estava lindo e arrumado a espera dos convidados - amigos, gente que convive conosco desde muito tempo e que junto de nós viveram as mais inenarráveis histórias. Caixas e caixas de cervejas esperavam pelos brincantes desta folia de 2010. Tudo prometia. A noite estava linda e a decoração transbordava alegria por todo o ambiente. Sentei à mesa e todos estavam felizes pulando as marchinhas de carnaval, aquelas antigas, mas que ainda fazem muito sucesso nos dias de folia. Conversei com um monte de gente, bati fotos com quase todas as mesas pra poder postar no blog e vi quando os gêmeos chegaram: juntos, rindo pra todo mundo, brincando e dançando também. “Vou bater uma foto com eles”, eu pensei. Mas o tempo foi muito curto e, em segundos, eles já não estavam mais lá. Ninguém sabia, mas um deles sairia daquela festa e não voltaria nunca mais. A vida, sabe Deus porque, pega a gente de surpresa e, em alguns minutos depois, soubemos da queda de moto que alguém na rua havia sofrido. No interior tudo é motivo de pânico e a festa esvaziou com a notícia do acidente, mas as pessoas que voltavam de lá diziam o que nós queríamos ouvir, que não era nada de grave e a folia continuou. A noite passou em horas e o dia amanheceu nublado aquele domingo. Algo de muito estranho pairava no ar. Fomos à tarde seguir o bloco atrás de um trio elétrico e tudo estava muito empolgante quando a tragédia foi confirmada: “O Kaio morreu!” Como? Todos ficaram estarrecidos. A cidade parou o trio emudeceu . O axé baiano, o funk carioca, o forró nordestino e o brega paraense se renderam à notícia daquela tragédia. Uma queda de moto, um baque forte na cabeça e o menino de apenas 17 anos e um sorriso de dar inveja estampado no rosto saiu de cena pra brilhar em outros carnavais. Impossível não se comover. Improvável não se render ao choro diante dos fatos. Como não pensar nos pais? Nos amigos? Na mãe? No irmão gêmeo que precocemente perdeu seu par, seu amigo, seu companheiro? Depois da morte, como esquecer da vida tão cheia de sonhos de um garoto maroto, brincalhão e empolgante que fez história nos corredores não só das folias de carnavais mas também nas ruas e praças do 47? Será triste viver sem ele porque fica no irmão idêntico a maior lembrança. A cada vez que vermos o Kaik daqui pra frente sentiremos que algo está faltando. E, por enquanto, será difícil sorrir, pular o carnaval porque perdemos o nosso pierrot. Perdemos um amigo, uma pessoa que fazia a gente feliz. Com a morte do Kaio, o carnaval perdeu a cor. A vida por enquanto perdeu o sentido para os que conviveram com o seu jeito moleque e divertido de ser. E, hoje, a minha sensação é que não vencemos o tempo. O ser humano é impotente diante deste vilão que nos arrasta em segundo ao desespero de não entender e não codificar os seus sinais. Por isso todos na pequena cidade se sentem culpados, uns por não terem ido junto na garupa daquela moto e talvez impedido a queda, outro por ter emprestado a chave ao menino, outros por não terem impedido que ele saísse da festa, outro, como o pai, por não estar por perto e protegido o filho, o irmão por ter ficado e o deixado ir...Mas de fato, ninguém tem culpa.. a não ser o tempo, esse relógio que faz correr a vida e que não sabemos por quais motivos tirou o Kaio de nós cedo demais, antes que outras belas histórias ele tivesse vivido, antes mesmo de pular o carnaval festa da qual era personagem principal. Ninguém tem culpa, nem ele porque se soubesse, se imaginasse o perigo pensaria duas vezes. O tempo é o culpado dessa fatalidade. E como diz o Renato Russo numa de suas canções: “É tão estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser quando eu me lembro de você que acabou indo embora cedo demais”. Com a morte do Kaio é essa a sensação que vai ficar na gente. E, além disso, a certeza de que ele era um bom menino, um excelente amigo, um ótimo filho e um irmão muito legal. Vai com Deus, amore. Você, temos certeza, era uma pessoa especial, tanto que no boletim médico expedido pelo hospital temos o laudo: morte cerebral. O cérebro parou, mas o coração, por horas, reagiu e seguiu batendo, numa resistência de quem se mostrou insatisfeito em morrer, mas deixando a todos nós a certeza de que muitos outros carnavais virão e muitas boas lembranças ficarão. O Tum Tum Tum dos tambores e tamborins da folia foram substituídos por você, menino Kaio, pelo pulsar do seu coração. Batimento cardíaco que resiste pralembrar aos que ficam que a vida...A VIDA CONTINUA!
Vai em paz, amigo! Durma com os anjos e roga por teu pai que está necessitando de muita força nesse momento. Guardaremos boas lembranças, moleque. Não te esqueceremos seu menino levado, seu pestinha sapeca. Voe, anjo, e reza por nós!Força Edno. E paz, em Santa Luzia...Olhái por este teu filho, minha santinha.E que o Senhor esteja conosco!
16 de fevereiro de 2010
CARNALUZIENSE...
Estávamos nos preparando para a segunda-feira de carnaval em Santa Luzia pra curtir a programção da Prefeitura Municipal, é ela que organiza o CARNALUZIENSE, a festa popular que há anos vem sendo reformulada para festejar os dias de folia na cidade. A programação da festa estava prometendo e nós estávamos muito animadas para curtirmos esse momento com a galera de Santa Luzia, mas com a morte do Kayo, tivemos que pegar a estrada mais cedo. Voltamos pra Belém antes do tempo porque perdemos o clima de festejo e aí, resolvemos parar em vigia pra tentar aproveitar o resto do dia.




Nas fotos, eu e as meninas com o abadá do CARNALUZIENSE dado a nós de presente pelo casal Gedson e Aíla e pelos amores, Francisca e França, o vereador da cidade!
Muito bacana. Pena que não conseguimos aproveitar a festa lá no 47!
Nas fotos, eu e as meninas com o abadá do CARNALUZIENSE dado a nós de presente pelo casal Gedson e Aíla e pelos amores, Francisca e França, o vereador da cidade!
Muito bacana. Pena que não conseguimos aproveitar a festa lá no 47!
CARNALUZIENSE: FESTA E MUITA EMOÇÃO!
Estivemos em Santa Luzia este carnaval. Muito bem organizada a festa por lá.É muito bom estar na minha cidade! Vi muita gente e reencontrei velhos e bons amigos da infância. O carnaluziense era uma festa que tinha tudo pra marcar a história dos nossos carnavais mas acabou mais cedo.A morte do Kayo, filho de uma das pessoas mais bem quistas no 47 calou a cidade inteira. Incrível como o povo do interior é solícito com a dor do outro. Impressionante como as pessoas não tiveram mais fôlego pra dançar na folia, depois do ocorrido. Cenas que ficarão na minha memória pra sempre: o bloco calado e os brincantes chorando vestidos com abadás suados com o pula pula da música que agora, ali, se confundia com lágrimas derramadas por pura tristeza. Nenhum lugar é como Santa Luzia que parou o axé pra rezar a ave Maria, que deixou o forró dos namorados agarrados para o segurar da mão em meio a uma oração emocionante que paralisou o corredor da folia. Era domingo, estávamos no primeiro bloco a desfilar nas ruas da cidade, o bloco do Jacaré, fizemos o percurso na maior folia e quando o trio chegou aos seu destino final, a noticia estatizou todos os que estavam por lá. IMPRESSIONANTE. Pessoas choravam em desespero a morte do menino. Amigos aos prantos e abraços comoviam e faziam chorar os bêbados e moradores na porta das casas. INESQUECÍVEL! Estou emocionada até agora. Sem palavras pra descrever o que eu senti ali enquanto observava tudo ao meu redor! Minutos depois alguém subiu no trio pra dar a notícia vinda de Belém pelo pai do menino, o Édno: o filho ainda não havia morrido, sofrera uma parada cardíaca e estava na UTI, desacordado, mas vivo. O POVO todo caiu novamente na folia. EMPOLGADOS, os meninos choravam de felicidade. A banda cantava emocionada e algumas músicas mal saíam direito da voz da vocalista. Um misto de alegria e tristeza invadiu a avenida Castelo Branco e me mostrou um das cenas mais bonitas de solidariedade que alguém pode demonstrar por uma outra pessoa. Fotografei o momento com o coração apertado e cheio de orgulho daquele povo que é meu também. A minha cidade, linda festejando o seu carnaval com a maior emoção que podia. MARCOU esse carnaval de 2010. LINDA demonstração de amor. O Kayo morreu nesta terça-feira, foi o que confirmou a tragédia. Parecia que ele sabia que não podia estragar o carnaval dos seus amigos que lá estavam. Mal sabia ele que depois de confirmada a morte cerebral o povo de lá já não conseguia mais entrar e nem cair na folia.
Deus te abençoe, querido!
CARNANEGA...ANTES E DEPOIS!!!
1º CARNANEGA...UMA DELÍCIA!!!!
Bom, mas a folia do Carnaluziense também teve os seus dias de felicidade: sábado e domingo, foram os dias em que nós pudemos curtir o carnaval com o peito cheio de muita alegria e muita vontade de fazer aquela festa que só nós, lá no 47, sabemos.
No sábado, tivemos o 1º CARNANEGA lá na residência da minha amiga Neguinha e foi TUDO DE BOM PONTO COM.Muitos amigos estavam por lá e muita cachaça esperava a gente pra mais um ano de sacanagem e boa conversa. A Nega caprichou na decoração, nas comilanças e também na seleção das músicas que agitaram o folia durante toda a noite e varou a madrugada rasgando o dia.
MUITO BOM. MUITO BOM MESMO. Em 2011, estaremos por lá!
Valeu, Nega!
JACARÉ...ÔBA!!!!!
Dois anos de tradição no Bloco dos "DESERDADOS" e nesse carnaval de 2010 eu traí a camisa indo pra folia no bloco do "JACARÉ", o mais novo grupo de foliões da cidade.TUDO DE BOM PONTO COM. A galera de Santa Luzia não tem noção da brincadeira: comprávamos um abadá e ganhamos 12 ticts de cerveja. Meu DEUS, quase tivemos um coma alcoólico. É muita cachaça pra pouca gente! Fomos num grupo de dez pessoas: eu, a May, a Mary, a Lohana, a Nega, o Domingos e um amigo dele aqui da Capital, a Suylma e o seu esposo e o Neto, filho da Nega. Pensa! 120 latas de cerveja. É um absurdo. Tomamos banho de schin. NOSSA, muito CHIC!!!
AMIGOS...reencontro de carnaval!!!
Não vou negar que fui atrás de folia lá no 47, mas estive lá também pelos amigos que eu só encontro nessa época de feriado. E, como todo ano, esse não foi diferente, muita gente esteve por lá aproveitando as férias pra curtir um pouco do sossego da Cidade Morena que é uma lindeza e um excelente lugar pra esquecer de vez o stress das grandes Capitais.
9 de fevereiro de 2010
Falar, é preciso?
Pode parecer fanatismo pela profissão,mas há dias em que é impossível não escrever algo. Hoje, 17 de março, é um dia perfeito - se o português Saramago me permitisse, é claro, - para iniciar como ele próprio fez em Objectos Quase. “. . .O dia amanhece com uma sensação de sonho degolado...”. É assim que me sinto. O dia bate na porta. O despertador dispara dando o sinal da hora do trabalho - esforço em vão, o biológico foi mais rápido e fez o serviço. A coluna, como sempre, reclama - o sofá está pequeno demais. Lá fora, a sonoridade dos pingos na calçada lembra a vida no interior. Porém, aqui o galo não canta, o sol não transpôs a fresta da janela e o cheiro do café torrado não invadiu a sala. Que penal!Tá muito frio e a chuva parece confirmar a coincidência: assim como eu, a Cidade das Mangueiras amanheceu aos prantos.
Há três dias que não falo, a rouquidão está provocando um desespero minimizador. Estou me sentindo o dublê do Pato Donald. Um Galileu Galilei depois da forca. Uma ré indo em direção da guilhotina. Rouca.Muda. Impotente.
Mais uma noite que passo em claro. O silêncio é perturbador. Fui aos livros, li sobre Ondulatória, os Fenômenos Acústicas, as Cordas Vocais...O som - grave, agudo, forte, fraco. Todos. Até que foi interessante. Deu pra distrair. A falta de barulho me levou ao pânico. Livros, Internet, pesquisa... até que cheguei ao alfabeto dos surdos - mudos. Simulei frases, gestos, mímicas - a mão nesse mundo mudo e tal qual a pontuação no escrito - e nesse silêncio dinâmico, tirei da cabeça a ideia de que sem a voz eu não seria nada. Que bobagem! Ledo engano! E da escuridão eu fiz luz. Bendita rouquidão. Você me fez lembrar da época quando ainda era uma criança sapeca. Era tão engraçado. Mamãe vivia exclamando “Cala essa boca menina!!!”, “Fecha essa matraca!!!” e papai, protetor como ele só, soltava o verbo “ Deixa de lengalenga, a garota só quer soltar ao voz!!!”. Realmente eu falava pelos cotovelos. Naquela altura do campeonato eu nem imaginava o que seria liberdade de expressão, mas já prezava por ela. Na escola, quando a tia prometia castigo por causa das conversas, eu emudecia de vez - mamãe não podia dar conta do meu mau comportamento, era surra na certa e eu morria de medo do cinturão. Maldito esparadrapo de couro, ele me fez calar durante anos.
Ah, meu Deus! Como quis falar, como quis dizer que os sermões da igreja eram sempre os mesmos, dizer que as lições do catecismo eram absurdas, dizer que achava um tédio as aulas que mamãe dava para noivas e padrinhos lá no pátio de casa. Tolice. Lorota. Mas não podia. Ela era beata famosa. Ministra da Eucaristia. Seu sonho era ver o Junior e eu como coroinhas lá no altar da igreja. Mulher religiosa por nascimento, vivia triste pelos cantos depois da perda do único filho que desejava ser padre. Orgulhava-se quando, no mês de março, as três menorzinhas saiam, lindas, vestidas de anjinhos com asas enfeitadas e tudo. Nós suávamos dentro do cetim, o ritual de coroação era sufocante e demorado, porém, sorríamos. Esse era o desejo de mamãe.
Pobre senhora. Treze filhos. Infinito sofrimento. Católica Apostólica Romana, como ela mesma fazia questão de informar, passava suas doutrinas religiosas para os filhos como se fossem hereditárias. Biológicas. Estou certa que ainda hoje guarda mágoas por eu não ter feito a crisma. Dedicada cristã, papai teme que ela passe do céu de tanto que reza.
Eu emudeci durante anos. Hoje compreendo meu erro, meu medo. Mamãe fazia a gente se sentir em plena Idade Média. Eu temia morrer e ir para o “quinto dos infernos”. Emudeci porque, assim como os doze, aprendi a respeitar os mais velhos, a pedir a benção, a orar antes de dormir.
Eu emudeci a infância inteira. A adolescência inteira. Porque me espelhava na figura paterna. Homem grande, grande homem. Negro, perdera a mãe tão cedo, o pai assim tão bruscamente, sofrera de derrame, paralisia, pressão alta. Como sofreu aquele senhor. Seu Feliciano, ele sim tinha precisão de chorar, gritar... No entanto, nunca o fez, preferia permanecer calado. Nunca o vi travando batalhas. Talvez teria sido por isso que tenha passado tranqüilo pela Ditadura de Vargas, a de 64, o descaso e a discriminação que condena o negro. Mesmo “comunista” não sofreu tortura alguma. Bendito silêncio. Só agora sei o teu valor. Papai também sabia e por isso está são e salvo, só o tempo, arrancou-lhe alguns fios do cabelo. Construiu uma, duas.. .treze vidas, calado, sem gritos, feito mineiro... Grande- homem. Silêncio majestoso. Acanhado, sem beijos, poucos abraços, alguns puxões de orelha, raríssimas palavras e os filhos foram dar na universidade, Quem diria que a infância perdida nas roças do Maranhão, fosse fazer tanto barulho no Pará.
Aprendi com ele, mas fui rebelde. Não consegui apanhar calada, não consegui deglutir as mágoas todas. E quando veio o casamento, fui forçada a aprender a lição. Aí descobri que papai estava certo. E precisei chorar pelos cantos, e aprendi a engolir o choro; a respeitar o chicote; a sofrer quando brigava, a não brigar quando sofria e a chorar quando colava. Depois, com a gravidez, de mulher me fiz um forte. Um castelo. No parto, chorei, gritei, exagerei, extravasei... Chamei pelo Pai do Céu. Nove meses, um grande esforço, a dor, o estouro, o rompimento, o medo tremendo, um gemido milagroso. Esforço de mãe. E com um berro ela, pequena, roxa, confirmou o milagre. E do grito fez-se a vida, a fome, carinho, cuidado. O choro tornou-se voz aos seis meses. Ela não disse “papa”, não disse “mama”, exclamou “sapo”, o anfíbio de plástico, o amigo inseparável na hora da babação.
E enquanto ela arranhava os primeiro sons, os meus já eram ecoados na pequena escolinha virando leite, carne, biscoito, danone, frauda descartável... a independência...a separação.
Sem a garganta, pensei, a vida é um tédio, a noite não passa, mas descobri que papai estava certíssimo quando dizia, nos poucos momentos em que falava, “Às vezes, é melhor ficar calado”. E descobri que talvez não seria tão ruim assim, que eu poderia sim me safar nas minhas limitações, poderia passar noites mergulhadas nos Machados, nos Bandeiras, Clarices, Raquéis. . .Poderia ser mestra em textos não- verbais, PHD em mímica. De fato, podemos extrair das coisas ruins algo de muito, muito bom.
E assim aprendi. Aprendi e descobri. Descobri que preciso agradecer um montão de gente que tem me ajudado, o patrão, os amigos... E que preciso dar mais atenção ao que minha filha fala, dizer que amo, que adoro, que agradeço, que estou feliz pelas oportunidades, pela confiança, pelo aprendizado. Falar, falar e falar... antes que a voz se cale para sempre, sem que dê tempo de falar a importância de cada amigo, cada aluno. A importância da vida, o poder das palavras, o dom divino da comunicação. Dizer bom dia, perguntar se está tudo bem, sorrir, dá um abraço.
A gente pode aprender tanta coisa com uma semana de virose, uma rouquidão intrusa...um minuto de silêncio. Eu, pelo menos, já sei o que faria se perdesse a voz: ESCREVERIA.
Texto escrito há seis anos.Resolvi publicar por causa do momento!!!
8 de fevereiro de 2010
Simones...aquele abraço!
Suylma..aquele abraço!
O PASSADO É UMA PARADA
É chegado o carnaval em Santa Luzia. O tão esperado Carnaluziense. Trios e bandas vindos da capital do estado. Blocos e abadás confirmam a modernização da cidade. Fantasias,cervejas, micaretas e achés que embalam a galera nos três dias de folia na Avenida Castelo Branco, a nossa avenida principal. Tem gente esperando o bloco passar, tem concurso de melhor performance carnavalesca. Jacaré, Os deserdados, Somos de Deus, Tradição Junina, Burro Elétrico e uma infinidade de brincantes vão encantar as ruas da cidade numa diversão de tempos modernos. Mas quem se lembra de como era antes? É o que vamos descobrir aqui, na postagem de hoje sobre COISAS QUE EU LEMBRO, a nossa página que já é o maior sucesso.
Bom, carnaval no 47, na minha época de adolescente, era regado de muito riso e diversão. Lembro que o listão do vestibular saía por esse período e aí a cidade tinha um motivo a mais pra comemorar - lá em casa então, todo ano tínhamos um aprovado e a cerveja com churrasco corriam soltos. O lugar comemorava a aprovação de um de seus moradores como sendo o acontecimento. O filho não era só do seu Feliciano era da cidade também e a festança ia até de madrugada. Mas além disso, o que realmente marcava as marchinhas e gritos carnavalesco do lugar eram os desfiles promovidos pelos amigo Didi, hoje motorista de van, e o Missião, seu parceiro e irmão da sacanagem, o Louro, um rapaz que tinha uma taberninha colada na Barraca da Santa e que produzia fantasia e apetrechos para o carnaval. O Louro era muito engraçado e, quando se unia ao Aderson, então, a coisa não prestava. Lembro que a gente saía de casa só pra esperá-los passar vestidos de mulher. UMA PIADA! Naquela época, os times de futebol faziam uma partida no campo com os jogadores fantasiados de meninas e a turma faltava perder o fôlego de tanto rir. Os meninos do Seu Zé Martins, os irmãos da Lucia Machado, a galera da rua perto da Piscina...ERA muito divertido. A Currutela ficava lotada de gente pra assistir ao jogo mais esperado do ano e o Didi e seu bloco chegavam por lá antes da partida pra alegrar a torcida. MUITO ENGRAÇADO! Somos da época da maizena. A gente era breado com aquele pó, ou com trigo, pelos brincantes dos blocos que vinham a pé e pegavam a gente de surpresa. Não havia briga por isso, todo mundo entrava na sacanagem porque era tradição. TRADIÇÃO mesmo, tanto que já era esperado. Mas nada, NADA, substitui as boas lembranças de carnaval que vivemos, que as folias vivenciadas na danceteria Beleza Pura quando o JudSOM, ainda era o ALVINEGRO, e o DJ era o Arfonso ou o Édi. Maravilhosos! Tempos das festas de carnaval inesquecíveis. Lembro que o som começava a troar pela danceteria logo que o jogo terminava avisando o começo do carnaval, que nem carnaluziense era. A tarde toda fazíamos trenzinhos aos ombros dos amigos ao som das velhas marchinhas. TRADICIONALÍSSIMO o Carnaval do João Borracheiro. Muito bacana ter vivido esses momentos. Não tínhamos muita confusão, a galera brincava numa boa e depois que as marchinhas cansavam o corpo, AGITO neles... Dançar agito na Beleza Pura era tradição também “po popedinha”, “cola me faz bem, cola me faz mal”, “O Valdeci é o satanás!!”KKKKKKK. Muito divertido lembrar. Esse nosso inglês podre! Agitávamos aos som das discotecas, final de festa duvido que elas não tocassem, os famosos Flash Back’s. Músicas que marcaram a nossa época, o globo rodando e a gente embaixo prestando atenção ao jogo de luz fulero, mas, que naquele tempo, era a maior novidade. Sinto saudade, apesar de saber que hoje temos muito mais atrações e opções. Carnaval no João Borracheiro, uma época que vale a pena recordar. Muita saudades dessa tradição!
INFÂNCIA...TEMPOS QUE NÃO VOLTAM MAIS!

Hoje eu amanheci com saudade. Saudade dos bons tempos em Santa Luzia. Da gente correndo pelas calçadas a procura de nada: só de muitos sorrisos e aventuras. Sinto falta de cada biqueira daquelas casas que fizeram a nossa historia. Das mães dos velhos amigos e as vassouradas que tivemos que receber como pagamento pela danação. Sinto falta das ruas estreitas ainda de piçarra, dos antigos bairros, as ladeiras que embalavam a nossa bicicletinha monareta que pedalávamos muitas vezes sem segurar no guidom, a molecada correndo atrás pra dividir aquele único brinquedo que era do Marcio japonês. Sinto falta dos velhos e bons amigos que brincaram comigo naquela pracinha em frente a Igreja Matriz, quantos joelhos quebrados, puxões de orelha, sermões bem dados. A gente era completo naquela época, época de menino feliz, de criança nas ruas em piras e cirandas. Molecada suada, breada que corria rindo de braços abertos pelas ruazinhas cheias de capim. Sinto falta dos meus amigos de escola, tantos que marcaram a minha vida, inenarráveis contos que fizeram de mim uma criança feliz. Ainda sinto em mim todos aqueles meninos que corriam comigo aos soar da capainha lá da Florentina. Meninada que não gazetava aula por medo de mãe e pai, medo da nota vermelha, pavor de secretaria. Amigos que junto de mim viveram os melhores tempos do mundo: a infância. E eu sinto saudade, muita saudade, da gente correndo por trás da igreja quando a rua nem paralelepípedo tinha ainda, tempos dos namoricos atrás da Matriz, época do primeiro beijo, do diário, das confissões inocentes. Nossa como eu sinto falta dos professores que marcaram a minha e outras tantas vida. Das notas vindas em vermelho e causavam choro, o medo da reprovação a época da recuperação. Tempo em que a mãe costurava as folhas com pauta na máquina pra fazermos as provas diárias. Tempo das apresentações em Sete de Setembro, das comemorações do dia da pátria, o desfile com uniforme completo, a cantoria do hino nacional e o hastear da bandeira. Tempos da intriga, dos amigos que magoavam e ficavam sem falar. Tempo das gincanas e brincadeiras aos domingos na Barraca da Santa. O nosso tempo! O melhor tempo do mundo: quando violência não era ainda realidade. Quando tomar benção dos pais não causava vergonha. Tempos de coroinha na igreja, sábados de catecismo, domingos no Caeté, férias em Salinas, amigo-invisível nos finais de ano. A gente ganhava sabonete e ria das sacanagens. Vestia roupas pedidas nos catálogos da Avon. Pulava carnaval no João Borracheiro e fazia a primeira comunhão. Se benzia antes de entrar na igreja, se confessava e tinha medo de comer a eucaristia sem o perdão do padre. Era muito bom ser criança em Santa Luzia. È muito bom saber que vivemos bons tempos numa época só nossa. Aproveitamos os melhores tempos. Eu, nós, os meus grandes amigos e personagens das peripécias daquelas estreitas ruas, ruas asfaltadas hoje, mas que, se eu fechar os olhos, ainda consigo sentí-las maltratando os meus pés descalços em dias de chuva quando a gente corria de casa atrás de uma vala pra mergulhar... Fomos felizes sem computador, Play Station, DVDs, Orkut ou MSN. Sei disso lembrando das vezes em que a chuva invadia o pátio de casa e a galera chegava molhada pra escorregar na lajota coberta de sabão em pó. A gente fazendo força com o pé e a barriga no chão levando a gente como peixe num rio de lembranças. Lembranças de um tempo. Tempo que passou e não volta mais. INFELIZMENTE!
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